domingo, 9 de novembro de 2008

Diagnóstico da Educação Rural-Distrital da Região


Como professor de escola pública e militante político na área da educação a muitos anos, eu sempre defendo a ampliação de séries no meio rural para o 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental. Fico impressionado com a falta de informação sobre Educação Rural Municipal na região. Recentemente fui até Carmo do Rio Claro conhecer o sistema que eles adotam: todas escolas rurais tem do 1º ao 9º ano e Educação Infantil – e funciona – tanto que eles adotam o sistema desde 1993. Não é apenas a questão da economia no transporte escolar, há o aumento considerável de recursos do FUNDEB e a melhoria da qualidade. No município há até Ensino Médio no meio rural. As escolas não são grandes, a menor delas tem 92 alunos e 9 turmas.

Resolvi, para subsidiar políticas públicas, fazer um diagnóstico, tendo como foco principal os município da SRE de Poços de Caldas. Eu analisei tanto as escolas rurais quanto às escolas distritais da regional. Estudamos a presença apenas de turmas de Ensino Fundamental e Médio, sem levar em conta a existência de escolas de Educação Infantil (são muitas). Notamos que com exceção de Muzambinho, Cabo Verde, Areado e Nova Resende, em 2007, todos os municípios ainda possuíam classes multisseriadas, ou seja, com turmas de mais de uma série juntas na mesma sala – algumas escolas funcionando com um único professor alunos de 1º, 2º, 3º, 4º e 5º anos. Chega-se ao extremo de existirem escolas com 9 alunos.

Infelizmente, nenhum município da regional seguiu o ótimo exemplo da cidade de Carmo do Rio Claro. Veja a tabela abaixo com os dados, todos referentes ao Censo Escolar de 2007.

1º a 5º ano

6º a 9º ano

Ensino Médio

Total

Rural

Distrital

Rural

Distrital

Distrital

Municipal

Multi

Municipal

Comum

Estadual

Municipal

Estadual

Municipal

Municipal

Estadual

Estadual

Muzambinho

6

6

Monte Belo

1

2

1

3

Cabo Verde

1

2

3

Areado

1

1

Alterosa

5

1

1

6

Nova Resende

3

1

1

4

Botelhos

8

1

1

1

1

10

Conceição da Aparecida

5

5

Caldas

3

3

1

8

Santa Rita de Caldas

3

1

1

4

Poços de Caldas

1

3

4

8

Campestre

5

2

1

8

Andradas

4

1

1

1

1

6

OBS: (1) Caldas possui ainda escola indígena de 1º ao 5º ano. É também o único município onde há em distrito duas escolas, a municipal até o 5º ano e a estadual do 6º ao 9º ano.

(2) Bandeira do Sul, Ibitiura de Minas, Divisa Nova e Serrania não possuem escolas rurais.

Entre os distritos, somente Palmeiral (Botelhos) e Campestrinho (Andradas) oferecem Ensino Médio, pela rede estadual. Atendem do 6º ao 9º ano os distritos de Santa Cruz da Aparecida (Monte Belo), Cavaco (Alterosa) e Petúnia (Nova Resende) pela rede municipal e Palmeiral (Botelhos), São Pedro de Caldas (Caldas), São Bento de Caldas (Santa Rita de Caldas) e Campestinho (Andradas) pela rede estadual. Poços de Caldas e Campestre possuem escolas rurais que atendem do 6º ao 9º ano.

Há escolas em distritos que possuem apenas até o 5º ano, todos com escolas municipais: Juréia (Monte Belo), Serra dos Lemes e São Bartolomeu (Cabo Verde), São Gonçalo (Botelhos), Santana de Caldas, Laranjeira de Caldas e São Pedro de Caldas (Caldas), Gramínea (Andradas).

Considerando apenas Ensino Fundamental e Médio, entre as escolas, há 10 escolas distritais com mais de 100 alunos, sendo as maiores de Palmeiral (Botelhos) com 493 alunos e Cavaco (Alterosa) com 312 alunos. Apenas 8 escolas rurais possuem mais de 100 alunos, sendo as maiores nos bairros Pedra Grande (Campestre) com 362 alunos e na Faz. Lambari (Poços de Caldas) com 297 alunos.

A menor escola distrital é a de Laranjeira de Caldas com 78 alunos. Há 11 escolas com 25 ou menos alunos, sendo as menores na Faz. Tripuí e na Faz. São Sebastião do Fim dos Campos, ambas em Caldas, com 9 alunos cada uma.

OUTRAS CIDADES

Estudamos vários outros municípios, e temos algumas informações.

Juruaia – Tem escola estadual rural de 1º ao 5º ano, no povoado da Mata do Sino – isso não existe na SRE de Poços de Caldas. O município possui ainda 2 escolas municipais rurais, nenhuma multisseriada.

Guaxupé – Com 2 escolas rurais, uma com 243 alunos e outra com 147 alunos, ambas municipais.

Carmo do Rio Claro - modelo de Educação Rural. Com escolas pequenas, estendeu toda a zona rural até o 9º ano. Nenhum aluno da Zona Rural estuda na rede urbana.

Escola

Bairro

Pré-Escola

1º ao 5º ano

6º ano 9º ano

EM do Bairro Três Barras

- Povoado Três Barras

39

151

130

EM do Taquaral

- Faz. Taquaral

10

38

43

EM São José

- Faz. da Furna

8

59

60

EM Sta Luzia

- Santa Luzia

31

150

128

Nenhuma classe multisseriada. Note que a EM do Taquaral tem menos alunos de 1º ao 5º ano que todas as 6 escolas de Muzambinho. Há apenas 20 escolas menores que a Faz. Taquaral na SRE de Poços de Caldas, e todas são multisseriadas. A ação de Carmo de Rio Claro foi ótima e garantiu mais qualidade de ensino e recursos do FUNDEB. Interessante notar que no distrito de Itaci não há escola, os alunos vão para Sta. Luzia. Em Três Barras e Santa Luzia há turmas de Ensino Médio em extensão de escola da zona urbana.

São José da Barra – com 2 escolas rurais, uma municipal e outra estadual, possui algo diferente das outras, uma escola rural, estadual, no povoado de Furnas, com Ensino Médio. Na SRE de Poços de Caldas sequer há escola estadual rural, quanto menos de Ensino Médio. Não há classes multisseriadas.

Monte Santo de Minas – uma escola municipal rural não multisseriada. Na sede do distrito de Milagres há uma escola estadual e outra municipal, nenhuma delas multisseriada.

São Sebastião do Paraíso – escolas rurais municipais: 2 multisseriadas até 5º ano, 2 não multisseriadas e 1 até o 9º ano.

Alfenas: escola multisseriada em Mandassaia com 39 alunos. No Povoado Bárbaras há escola de 1º ao 5º ano com 70 alunos. Na Faz. Vargem Alegre no Muzambo há uma escola com 178 alunos do 1º ao 5º ano e 136 alunos do 6º ao 9º ano. No distrito do Barranco Alto há uma escola de 107 alunos do 1º ao 5º ano e 82 alunos do 6º ao 9º ano, e há extensão de escola estadual atendendo o Ensino Médio.

São Pedro da União – apenas escola municipal rural não multisseriada no povoado da Biguatinga.

Alpinópolis, Fortaleza de Minas, Guaranésia, Jacuí – apenas escolas municipais rurais todas multisseriadas.

Itamogi, Bom Jesus da Penha – não possuem escolas rurais.

Cidades de outras SREs

Juruaia: tem uma escola estadual de 1º a 5º ano rural no povoado da Mata do Sino (123 alunos). Na SRE de Poços de Caldas não há escolas estaduais rurais. No município, com escolas rurais na Palestina (32 alunos) e Grama (41 alunos), os alunos revezam cada série em um dos bairros. Não há classes multisseriadas e 90% dos alunos da zona rural estudam na zona urbana.

Guaxupé: duas grandes escolas de 1º ao 5º ano, municipais, e consideradas modelo: EM D. Olímpia Felippe da Silva, na Faz. N. Sra. de Fátima dos Pinheiros, com 243 alunos e a EM Olympia Leite Ribeiro, na Rodovia Jamil Nasser, com 147 alunos.

Carmo do Rio Claro: modelo de Educação Rural. Com escolas pequenas, estendeu toda a zona rural até o 9º ano. Nenhum aluno da Zona Rural estuda na rede urbana.

Escola

Bairro

Pré-Escola

1º ao 5º ano

6º ano 9º ano

EM do Bairro Três Barras

- Povoado Três Barras

39

151

130

EM do Taquaral

- Faz. Taquaral

10

38

43

EM São José

- Faz. da Furna

8

59

60

EM Sta Luzia

- Santa Luzia

31

150

128

Nenhuma classe multisseriada. Note que a EM do Taquaral tem menos alunos de 1º ao 5º ano que todas as 6 escolas de Muzambinho. Há apenas 20 escolas menores que a Faz. Taquaral na SRE de Poços de Caldas, e todas são multisseriadas. A ação de Carmo de Rio Claro foi ótima e garantiu mais qualidade de ensino e recursos do FUNDEB.

Interessante notar que no distrito de Itaci não há escola, os alunos vão para Sta. Luzia.

São Pedro da União: Há apenas escola no povoado da Biguatinga, com 107 alunos.

Alpinópolis: há 4 escolas, 2 multisseriadas: Faz. Sapé (35), Faz. Mutuca (58), Faz. Prata (40), Faz. São Bento (52).

Fortaleza de Minas: apenas 1 escola rural, multisseriada na Faz. Prata de Cima, com 42 alunos.

São José da Barra: escola municipal rural em Bom Jesus dos Campos com 157 alunos e escola estadual rural em Furnas com 122 alunos de 1º ao 5º ano, 132 alunos de 6º ao 9º ano e 102 alunos no Ensino Médio. Algo raro: uma escola estadual rural com Ensino Médio (a SRE de Poços de Caldas não tem nenhuma escola estadual rural)

Guaranésia: 4 escolas rurais multisseriadas em Cachoeira (30), Faz. Cinco Paus (16) e Faz. Ipiranga (32). No distrito de Santa Cru do Prata há uma escola estadual que atende de 1º ao 5º ano 157 alunos e do 6º ao 9º ano 133 alunos.

Jacuí: 1 escola rural multisseriada no bairro Santana, com 60 alunos.

Monte Santo de Minas: uma escola rural, na Faz. Lagoa, com 103 alunos. No distrito de Milagre há uma escola municipal de 1º ao 5º ano com 243 alunos e uma escola estadual de 6º ao 9º ano com 150 alunos.

São Sebastião do Paraíso: duas escolas rurais multisseriadas na Faz. Faxina (41) e na Faz. Morro Vermelho (68). Escola de 1º a 5º ano em Termópolis (135) e na Faz. Marques (90). Escola de 1º ao 9º ano na Faz. Ponte Alta, com 108 alunos de 1º a 5º ano e 92 de 6º ao 9º ano.

Alfenas: escola multisseriada em Mandassaia com 39 alunos. No Povoado Bárbaras há escola de 1º ao 5º ano com 70 alunos. Na Faz. Vargem Alegre no Muzambo há uma escola com 178 alunos do 1º ao 5º ano e 136 alunos do 6º ao 9º ano. No distrito do Barranco Alto há uma escola de 107 alunos do 1º ao 5º ano e 82 alunos do 6º ao 9º ano, e há extensão de escola estadual atendendo o Ensino Médio.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O neo-fascismo na educação mineira

Os professores não conseguem cumprir com os planos de curso do Estado de Minas, eles tem no site do CRV – Centro de Referência Virtual do Professor todo material e plano de aulas preparadas com Orientações Pedagógicas, Roteiros de Atividades, Módulos Diferenciados. Há mais recursos que nunca, professores foram quase todos efetivados, estabeleceu-se um piso salarial, o Plano de Carreira premia com promoção os professores que obtiverem nota 70 ou mais nas Avaliações de Desempenho. Até um Prêmio de Produtividade é pago para os professores que mostrarem bons resultados de seus alunos no SIMAVE, mas quase ninguém está motivado a trabalhar com os alunos, e mesmo com toda motivação e convênio os professores estaduais não conseguem cumprir as metas para alfabetização. Conta-se que o estado de São Paulo está copiando a política de Minas Gerais, afinal os alunos de lá não são tão bons, veja só, a nota do ENEM no ano passado: o nosso estado foi o melhor da região sudeste do Brasil.

Tudo isso que eu escrevi acima poderia convencer qualquer um de que o governo mineiro é um benfeitor e que os verdadeiros culpados da péssima qualidade do ensino são os professores, e, que mesmo assim, paradoxalmente, ainda há bons resultados. Na realidade, é um discurso fascista, de extrema-direita, ligada a uma lógica mercadológica (de resultados), a serviço do capitalismo. Não se trata de um posicionamento político, é a constatação de que os professores não conseguem cumprir o que o estado faz, se sentem culpado e se resignam, não questionando. É a constatação de que, a maioria dos professores já percebeu o trabalho incoerente, sem fundamentação e massacrador da rede estadual de Ensino de Minas Gerais, e, o trabalho desagregador, ingênuo, êmico e pseudo-propedêutico realizado pelos agentes oficiais do estado, agentes de repressão lotados em superintendências, escolas, subsecretarias ou outros órgãos com nomes longos e pomposos. Chamaria-os de agentes oficiais da repressão governamental – AORG.

Realmente, é impossível cumprir o que o estado quer, pois além da falta de clareza e a inexequibilidade das propostas, já há um aparato de cobrança, repressão e aniquilamento das posições contrárias. É o fascismo mascarado com marketing e pó de arroz. A utilização de termos bonitos: Estudos Orientados, Progressão Parcial, Currículo Básico Comum, Eixos Temáticos, PAAE, PROEB, PROALFA dá uma sensação de seriedade e cria-se a crença de que se está fazendo algo sério, enquanto, na realidade, o que está sendo feito é jogar um conjunto de idéias desarticuladas, sem qualquer fundamentação teórico-metodológica e completa desconsideração de concepções mais sérias de educação, ensino, avaliação, currículo, aluno, escola, professor.

No governo Itamar Franco havia ainda a base teórica da “Escola Sagarana”, que não funcionava na prática, mas pelo menos oferecia subsídios para discussões mais ricas e para uma construção coletiva, democrática e não traumática de melhores rumos para a educação mineira. Claro, a Escola Sagarana contava com o apoio de gente muito séria, e de concepções reais de educação. E mais: o projeto Escola Sagarana respeitava os professores, as escolas, as comunidades, os alunos, e era algo totalmente viável e possível de ser aplicado com satisfação. Hoje, o governo mineiro cria diversos projetos e os coloca em prática, violentando vocações comunitárias, não respeitando os ritmos de transformação pelos quais os professores estão sujeitos e acham ainda que os professores são culpados por não seguirem as impossível mudanças propostas, totalmente desvinculadas da realidade, e, em grande maioria, nocivas para a realidade do estado de Minas Gerais. Tudo isso, com muito pó-de-arroz para parecer bonitinho.

É uma postura fascista, que quer mostar “resultados” e associação a produção do professor a criação em massa de produtos: alunos alfabetizados, notas em avaliações sistêmicas, “Planos (sic) de Intervenção (sic) Pedagógica (duplo sic)”. Ainda os professores são submetidos à uma Avaliação de Desempenho degradante, taylorista e descontextualizada da realidade docente. Acreditam que uma escola é uma empresa, e isso todo mundo já sabe que não é, e não pode ser tratada como.

Nossos professores são heróis, pois suportam a imposição de um Currículo Básico Comum impossível de ser cumprido, mal feito (eu já estive em Belo Horizonte com os consultores que fizeram o CBC, e afirmo: MUITO mal feito) e ainda são obrigados a tolerar admoestação de diretores, supervisores e inspetores por maus “resultados” e são perseguidos por cruéis Avaliações de Desempenho. O professor acaba acuado, amendrotado, se cala, e aceita. A história já mostrou muita gente assim, travestido em democracia: Mussoline, Salazar, Franco, entre outros. Minas Gerais, em educação, tem exatamente o mesmo comportamento. Ninguém está satisfeito, mas se perguntarem, não vai haver um que tenha coragem de dar a cara à tapa. A covardia e atribuição de notas azuis para todos os alunos tornaram-se instituições obrigatórias, inclusive para promoção por mérito e para receber um 14º salário com nome capitalista: Premio de Produtividade – quem produzir mais alunos sem saber, com notas e estatísticas terá mais dinheiro no bolso.

A mentira é uma instituição oficializada. Efetivaram-se milhares de servidores e diz-se que foi uma conquista: na realidade a efetivação foi uma obrigação do governo para ficar de acordo com modificações previdenciárias da Emenda Constitucional número 20. O 14º salário ele foi obrigado a pagar, pois caso contrário não conseguiria gastar todo dinheiro que o estado recebeu de repasses do FUNDEB, e teria que devolver para o governo federal. O piso de R$ 850,00 é uma farsa, só vale para professor iniciante, com no máximo um biênio – o que o governo fez foi cortar várias outras vantagens.

A subestimação da inteligência do povo mineiro foi tão grande que o jornal “O Estado de Minas” publicou que MG obteve o melhor resultado da região sudeste no ENEM, no intuito de ludibriar o leitor. A média do estado de acertos por questão no ENEM foi 39,03, sendo a média do estado de São Paulo de 38,86, do Rio de 38,61 e do Espírito Santo de 38,51, ou seja, uma diferença insignificante, de 0,44%, menos de uma questão. Pura mentira, no intuito de enganar o leitor.

Só para exemplificar no caso do ENEM, no caso dos concluintes do 3º ano do Ensino Médio, a média de MG era de 37,73, inferior aos 37,78 do RJ e próxima aos 37,47 do ES e 36,49 de SP. Na maioria das provas as diferenças de MG para outros estados eram insignificantes.

A insensatez das propostas mostra sinais de incoerência. Há um tal de processo de reclassificação e classificação que até hoje ninguém entendeu – não há padrão e ninguém – nem mesmo os criadores dos regulamentos – entendem como funciona. Serve para toda escola fazer errado e levar bronca. O mesmo vale para Progressão Parcial e para os bizarros Estudos Orientados Presenciais feitos imediatamente após o ano letivo, onde não há nenhum dia previsto para que ocorram, mas que toda escola é obrigada, por força de uma Resolução (521) a executar.

A incoerência é extrema. Inventaram uma tal de Ênfases Curriculares, onde os alunos se especializaram em algumas matérias e não terão outras no currículo. Aplicaram nas Escolas Referências (um projeto mal sucedido), as tais ênfases não deram certo, e o que ocorreu? Aplicou-se para o estado todo, como se fosse possível sonegar de alunos que querem fazer vestibulares disciplinas como Física ou História de seus currículos (e fizeram isso). Parece que não conhecem história e não lembram do fracasso que essa metodologia foi no Brasil entre 1961 e 1971, e o fracasso disso em todo o mundo: Minas Gerais na marcha ré da história em termos de Educação.

Os maus resultados das Escolas Referências se mostram na queda das notas do ENEM da maioria das escolas que aderiram ao projeto. Até mesmo no PROEB, avaliação do próprio governo estadual, é perceptível que as escolas que aderiram ao sistema de “ênfases” tiveram declínio em seus resultados. O fracasso institucional foi levado para todo o estado, como se fosse algo pioneiro.

Tão pioneiro quanto a afirmação de que o estado foi o primeiro a aderir ao Ensino Fundamental de 9 anos, enquanto o sistema já existia na prefeitura de Porto Alegre desde 1990, por exemplo. Eu mesmo trabalhei em escola, em Araraquara, com Ensino Fundamental de 9 anos, antes da implantação no estado de Minas Gerais.

Ora, há coisas tão incríveis que chega a nos deixar perplexos. Por exemplo, há uma avaliação chamada PAAE, apenas para alunos do 1º ano do Ensino Médio. Uma fortuna de dinheiro foi enviada para escolas para ser desperdiçado em xeróx de provas que os alunos eram incapazes de resolver, e perguntavam sobre geografia do caribe, passos de dança de Tango, entre outras coisas que eles seriam impossível de saber – uma prova tão perversa que o professor também teria que responder e seria avaliado pelos seus erros – e foram muitos no estado,obviamente, não pela má qualidade dos professores, mas pela má qualidade do “Banco (sic) de Itens (sic)”. Naturalmente, a prova não funcionou, a maioria das escolas não deu conta de aplicá-las corretamente, e, as provas que mediriam o avanço dos alunos no decorrer dos três bimestres, a partir do CBC do primeiro ano que prepara para as “ênfases curriculares”, e, simplesmente, a prova foi abandonada. Dinheiro jogado no lixo, sem serventia, sequer vai servir para ver qualquer evolução.

Aliás, a lista de absurdos do estado é muito grande: Atividades Complementares, turmas de 40 minutos e 50 minutos, Plano de Intervenção Pedagógica, Análise de Gráficos, PDI.

São tantos “P”s que ninguém acompanha: PAAE, PIP, PROEB, PROALFA, PDI, PP, PDP...

Quanto ao governo de São Paulo, diria eu, que até eles acreditam em nossas mentiras. A CENP tem mais condições de produzir materiais e bons materiais que toda a estrutura pedagógica do estado de Minas Gerais. É até ofensivo comparar com São Paulo.

Talvez queiram os governantes do estado bandeirante implantarem lá a passividade e a submissão dos professores mineiros. Por lá tem USP, UNESP, UNICAMP, diretórios acadêmicos, políticos, empresários, APEOESP e muitos outros sindicatos para protestar e fazer barulhos. E em Minas Gerais? Nada! Apenas silêncio aos novos coronéis.

A resposta a gente precisa dar nas urnas, rejeitando esse governador e qualquer um de seus seguidores. Minas Gerais precisa retomar os trilhos da educação, sem tortura, sem pressão psicológica, trabalhando-se com competência técnica, respeito às limitações do professor, sem burocracia, frescuras, mentiras.

O professor não é culpado. Esse sistema é fracassado e não vai funcionar. Nunca.

Prof. Otávio – Vereador Eleito – 2009-2012

PS: Se o professor entra na sala e não consegue aprendizagem é considerado culpado pelos AORG que vem analisar gráficos como se esses fossem totens ou oráculos. Nesse caso o professor não soube motivar, não estudou, e talvez deva ser demitido. Já se os AORG não conseguem fazer uma escola funcionar, o culpado é o professor, que é folgado, mal preparado, incompetente e burro, e deva ser demitido. Eu diria, pagando na mesma moeda. Se os professores não ensinam é pelo fato dos AORG não ensinarem direito, não respeitarem os limites de cada professor, não contextualizarem os seus trabalhos. Eles pedem tudo isso aos professores para motivar os alunos, então façam isso para motivar os professores. Chega dessa coisa ridícula! Vamos agir daqui a 2 anos, nas urnas.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

OPINIÃO

Esse blog pretende colocar em pauta as questões das quais eu me envolvo politicamente, das que tomo conhecimento e ponderar sobre assuntos de interesse que possam ajudar especialmente as pessoas de Muzambinho. É um blog político, ideológico, sem nenhuma pretensão de neutralidade. Os valores pregados são os meus valores.

Vou discutir entre outros assuntos, em breve:
* O caso da biblioteca do colégio no jardim.
* O fim do 1o ao 5o ano na EE Cesário Coimbra: precisamos impedir isso.
* A polêmica em torno da composição da mesa da Câmara: a legitimidade desse fato e as inverdades que se dizem por aí.
* O mito fascista da "Grande Família" (de que todos tem que se unir para uma causa maior)
* A impossibilidade de asfaltar a Av. Américo Luz: mostrar que não é questão de querer, é impossível mesmo
* A importante manutenção do Consórcio do Lixo em Muzambinho
* O que é ser oposição?
* IDEB, PROALFA, PROEB, Prova Brasil: a Rede Municipal está melhor que a Estadual
* Orçamento Participativo em Muzambinho: o que está acontecendo?
* A Lei 11.738/2008 - Piso Salarial dos Professores - possíveis encaminhamentos.
* Será que vale a pena acabar com a QESE - comentários sobre pontos da reforma tributária do governo federal?
* Como o PROUNI beneficia nossos alunos?
* Impactos do IFET sobre Muzambinho.
* Lei do Som: o que fazer para aumentar o comércio nas noites de Muzambinho.
* O que é direita e o que é esquerda em Política e como eu me posiciono.
* O que é democracia? Não é simplesmente maioria.
* A ridicularização como arma dos fracos.
* Religião e política: coisas imiscíveis, porém, líderes religiosos são cidadãos como todos.
* O quanto a política norte-americana chega a ser ridícula.
* A infeliz derrota de Quintão em Belo Horizonte. O que MG e o Brasil ganhariam com a derrota de Lacerda.
* Reflexões sobre a política regional e nacional.

Vamos comentando. Quero transformar minha atuação política em algo pedagógico, ensinando lições de política, de cidadania, de vida. Vamos lutar por uma Muzambinho melhor.

A Eleição da Câmara Municipal em 1936

Trecho de minha dissertação de mestrado (600 páginas)

O pleito de 1936 foi feito em duas etapas. Uma para vereadores e depois a eleição de prefeito, indiretamente, eleito pela Câmara.

Dr. Lycurgo Leite lançou um grupo de candidatos tucanos, opositores aos pica-paus. Seriam candidatos a vereador ele mesmo, o chefe do partido, e ainda Henrique Vieira, João Viana de Figueiredo e Ivo Antônio Marques, representando a lavoura. Messias Gomes de Melo, Hasloscher Amaral e Francisco Venceslau dos Anjos representando o comércio. Antônio Magalhães Alves representaria os funcionários públicos. Talcídio de Oliveira representaria as classes liberais.

O prefeito continuaria sendo Dr. José Januário de Magalhães, reeleito pela Câmara, em eleição indireta. Dr. Lycurgo Leite fazia absoluta questão que todos seus vereadores aprovasse a sua candidatura para o primeiro prefeito constitucional de Muzambinho após a Constituição de 1934, quando o mesmo foi constituinte. Mesmo o médico Talcídio de Oliveira, adversário de Dr. José Januário, concordou em apóia-lo.

Antes mesmo do pleito, contam que Dr. José Januário arrumou confusão com Dr. Talcídio e Magalhães Alves, após a morte do Dr. Lycurgo arrumou confusão com Salathiel e com todo o grupo tucano e se aliou aos pica-paus, levando consigo muita gente.

O pleito de 1936 seria uma grande disputa. Outra grande disputa entre tucanos e pica-paus, a primeira municipal. A primeira que temos registrado que usam os nomes “pica-pau” e “tucano”.

A primeira manifestação explícita contrária ao grupo pica-pau, que encontramos, chamada de “O grupo de Júlio Prestes antes da eleição de 1930 foi publicada no jornal tucano “O Muzambinhense” em 14 de junho de 1936: Neste artigo, os tucanos acusam os pica-paus, que sempre tiveram deputados estaduais, de mandarem um delegado militar para substituir o prefeito Dr. José Januário de Magalhães. Talvez seja verdade. Os Coimbra, os principais pica-paus vinham de uma linhagem de coronéis, e o coronelismo estava ruindo.

Interessante é que o jornal tucano agradece Benedito Valladares, já governador de Minas Gerais. Eles saúdam e fazem vivas para Valladares, que, um ano mais tarde, seria inimigo deles e alvo de críticas ferozes.

A edição de 14/06/1936 anuncia que Muzambinho tem 3787 eleitores, sendo 2481 em Muzambinho, 774 em Monte Belo e 532 em Juruaia. Aponta o quociente eleitoral para vereador em Muzambinho 420, e para Juiz de Paz em Muzambinho 620, Monte Belo 190 e Juruaia 130.

Eles anunciam Lycurgo Leite no jornal como “nosso estimado chefe Dr. Lycurgo Leite”.

O resultado das eleições foi comemorado em uma edição inteira, em 05/07/1936. A manchete “A Lição das Urnas – pleito de 7 de Junho”. Partido Progressista, dirigido por Dr. Lycurgo Leite (tucanos). O Partido Progressista Renovador representado pelo dep. Gastão Coimbra (pica-paus). Curiosamente, esse jornal é a fonte escrita mais antiga onde encontramos os termos pica-paus e tucanos.

Os pica-paus utilizando o slogam “Pela Liberdade de Muzambinho” e propunham a libertação do povo dos opressores, e perderam de 2524x1040.

O resultado das eleições em Muzambinho foi:

Eleições Municipais de 1936

Cidade

Monte Belo

Juruaia

P. Progressista

Tucanos

1625

529

370

P. Renovador

Pica-paus

751

137

152

Integralismo

62

89

2

Vereadores:

PP (tucanos) – Dr. Licurgo Leite 783 / Ivo Antônio Marques 367 / Francisco Venceslau dos Anjos 384 / Dr. Talcídio de Oliveira 250 / João Viana 177 / Henrique Vieira 173 / Dr. A. Magalhães Alves 171 (eleitos) Messias Gomes de Melo 125 / Haslocker Amaral 111 / legenda sem nome 19

PR (pica-paus) – Dr. Fábio de Oliveira Coimbra 737 / João Luiz Marcondes Jr. 125 (eleitos) Valentim de Podestá 129 / Galdino Ribeiro de Araújo 10 / Antônio Inacarato 2

Integralismo – Dr. Armando Paraizo Pereira 152 / Argeu Franco 1

Avulso – José Barbosa de Lima – 0

Juiz de Paz:

Cidade: PP – Valério Lacerda 929, Orozimbo Costa 322, José Hipólito Guimarães 187 (eleitos) Calimério Cerávolo 158 / PR – Candido de Souza Machado 745 (eleito) único votado / Integralismo – Zacarias A. Magalhães 13 / João B. Costa 4

Monte Belo: PP – Norberto Hermenegildo dos Anjos 196, João Boneli Filho 139, José P. Martins 102, Pio José de Souza 95 (eleitos) / PR – Sotero José Rodrigues 132 / Integralismo – José Firmiano da Silva 29 / Luiz de Castro 28 / Lídio Alves de Oliveira 23 / Geraldo Carneiro 8

Juruaia: PP – Alcebíades P. Silva 150, Alfredo Porfírio de Souza 81, Balbino Ferreira da Trindade 70 (eleitos) Espir C. Mussi 65 / PR – Joaquim José Marques 155 (eleito) (O Muzambinhense – 05/07/1936)

O jornal se caracterizou por um tom humorístico, veja alguns trechos:

No período de apuração das urnas de Muzambinho, realizada em Guaxupé, deram-se diversos fatos que não escaparam à perspicácia do cronista. Podia-se comparar àquele recanto apurador à um stúdio de rádio, que tinha como speaker o Floriano Carli. Este como uma verdadeira estação emissora, teria dito o seguinte. (...)

Uma nota original do prestito foi a presença de grande número de senhoras e senhoritas que, com entusiasmo, fazia coro com os manifestantes, cantando a canção popular “Pica-paus apaixonados” paródia da canção carnavalesca “Pierrot apaixonado”

Ecos da apuração: “RCT Rádio Club Tucano – Agora vamos dar início da irradiação da sensacional luta Tucanos x Pica-Paus”, “A seguir, ouviremos o rei do samba Gastão Coimbra, interpretando a batucada “Falsas declarações”, letra e música de sua autoria”, “Alô, alô! Acaba de verificar-se um ligeiro incidente: o tenor Camilo Paolielo, abandona o microfone, inesperadamente, dirige-se à mesa apuradora e lança um protesto alegando que as urnas de Juruaia tinham sido violados ou trocadas, pois era sabido que os Pica-paus tinham maioria naquele distrito e no entanto as urnas iam revele distrito e no entanto as urnas iam revelar justamente o contrário. O juiz repele a insinuação, perguntando ao protestante se tinha a propriedade de ver atravez de corpos opacos e que só tornará em consideração o protesto se ele provasse que seus belos olhos têm a propriedade de Raios X. Está terminada a apuração de Juruaia: Tucanos – 370; Pica-paus 151 (...)

Com fino humor eles falam sobre a apuração que ocorreu em Guaxupé, no 30º Círculo Eleitoral, composto pelas cidades de Arary (atual Itamogi), Arceburgo, Guaranésia, Guaxupé, Monte Santo, Muzambinho, Nova Resende. (O Muzambinhense – 12/07/1936).

Aparecem os nomes dos primeiros Pica-paus. Alguns, mais tarde muito importantes Lalau Campedeli, Jane Cipriani, os Coimbras Armando, Fábio e Camilo.

A edição do jornal “O Muzambinhense” de 12/07/1936 apresenta convocação do Dr. Lycurgo Leite para posse e eleição da mesa diretora dos vereadores, às 15h do dia 26. O mesmo jornal anuncia “Grande Manifestação de Apreço” aos exmos srs Dr. Lycurgo Leite e José Januário de Magalhães, com Marche au flambeaux, bailes e discursos.

O prefeito eleito indiretamente foi Dr. José Januário de Magalhães, e o presidente da Câmara eleito foi o Dr. Lycurgo Leite, o que era natural, pois já havia sido deputado federal. Dr. Lycurgo no mesmo ano, veio a falecer, sendo substituído por Antônio Magalhães Alves na presidência da Câmara. O falecimento do Dr. Lycurgo foi o estopim para o definitivo rompimento do Dr. José Januário com os tucanos, que, desde antes das eleições já estava em grande animosidade.

O presidente Antônio Magalhães Alves rejeitou as contas do prefeito e determinou sua cassação, o que não ocorreu devido às intervenções de Benedito Valadares, governador de Minas Gerais. Acabou ocorrendo a saída de Magalhães Alves e assumindo a presidência o Dr. Talcídio e depois Messias Gomes de Melo, que foi o último presidente cassado com o golpe do Estado Novo, junto com todos outros vereadores do Brasil, permanecendo o Dr. José Januário de Magalhães como prefeito até o fim da ditadura.

Sobre a cassação do Dr. José Januário, a morte do Dr. Lycurgo, os bastidores da eleição de 1937, a briga de Salathiel de Almeida e Dr. José Januário, e outros assuntos, você confere na dissertação de mestrado e no livro que será publicado.

Prof. Otávio Luciano Camargo Sales de Magalhães