quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O neo-fascismo na educação mineira

Os professores não conseguem cumprir com os planos de curso do Estado de Minas, eles tem no site do CRV – Centro de Referência Virtual do Professor todo material e plano de aulas preparadas com Orientações Pedagógicas, Roteiros de Atividades, Módulos Diferenciados. Há mais recursos que nunca, professores foram quase todos efetivados, estabeleceu-se um piso salarial, o Plano de Carreira premia com promoção os professores que obtiverem nota 70 ou mais nas Avaliações de Desempenho. Até um Prêmio de Produtividade é pago para os professores que mostrarem bons resultados de seus alunos no SIMAVE, mas quase ninguém está motivado a trabalhar com os alunos, e mesmo com toda motivação e convênio os professores estaduais não conseguem cumprir as metas para alfabetização. Conta-se que o estado de São Paulo está copiando a política de Minas Gerais, afinal os alunos de lá não são tão bons, veja só, a nota do ENEM no ano passado: o nosso estado foi o melhor da região sudeste do Brasil.

Tudo isso que eu escrevi acima poderia convencer qualquer um de que o governo mineiro é um benfeitor e que os verdadeiros culpados da péssima qualidade do ensino são os professores, e, que mesmo assim, paradoxalmente, ainda há bons resultados. Na realidade, é um discurso fascista, de extrema-direita, ligada a uma lógica mercadológica (de resultados), a serviço do capitalismo. Não se trata de um posicionamento político, é a constatação de que os professores não conseguem cumprir o que o estado faz, se sentem culpado e se resignam, não questionando. É a constatação de que, a maioria dos professores já percebeu o trabalho incoerente, sem fundamentação e massacrador da rede estadual de Ensino de Minas Gerais, e, o trabalho desagregador, ingênuo, êmico e pseudo-propedêutico realizado pelos agentes oficiais do estado, agentes de repressão lotados em superintendências, escolas, subsecretarias ou outros órgãos com nomes longos e pomposos. Chamaria-os de agentes oficiais da repressão governamental – AORG.

Realmente, é impossível cumprir o que o estado quer, pois além da falta de clareza e a inexequibilidade das propostas, já há um aparato de cobrança, repressão e aniquilamento das posições contrárias. É o fascismo mascarado com marketing e pó de arroz. A utilização de termos bonitos: Estudos Orientados, Progressão Parcial, Currículo Básico Comum, Eixos Temáticos, PAAE, PROEB, PROALFA dá uma sensação de seriedade e cria-se a crença de que se está fazendo algo sério, enquanto, na realidade, o que está sendo feito é jogar um conjunto de idéias desarticuladas, sem qualquer fundamentação teórico-metodológica e completa desconsideração de concepções mais sérias de educação, ensino, avaliação, currículo, aluno, escola, professor.

No governo Itamar Franco havia ainda a base teórica da “Escola Sagarana”, que não funcionava na prática, mas pelo menos oferecia subsídios para discussões mais ricas e para uma construção coletiva, democrática e não traumática de melhores rumos para a educação mineira. Claro, a Escola Sagarana contava com o apoio de gente muito séria, e de concepções reais de educação. E mais: o projeto Escola Sagarana respeitava os professores, as escolas, as comunidades, os alunos, e era algo totalmente viável e possível de ser aplicado com satisfação. Hoje, o governo mineiro cria diversos projetos e os coloca em prática, violentando vocações comunitárias, não respeitando os ritmos de transformação pelos quais os professores estão sujeitos e acham ainda que os professores são culpados por não seguirem as impossível mudanças propostas, totalmente desvinculadas da realidade, e, em grande maioria, nocivas para a realidade do estado de Minas Gerais. Tudo isso, com muito pó-de-arroz para parecer bonitinho.

É uma postura fascista, que quer mostar “resultados” e associação a produção do professor a criação em massa de produtos: alunos alfabetizados, notas em avaliações sistêmicas, “Planos (sic) de Intervenção (sic) Pedagógica (duplo sic)”. Ainda os professores são submetidos à uma Avaliação de Desempenho degradante, taylorista e descontextualizada da realidade docente. Acreditam que uma escola é uma empresa, e isso todo mundo já sabe que não é, e não pode ser tratada como.

Nossos professores são heróis, pois suportam a imposição de um Currículo Básico Comum impossível de ser cumprido, mal feito (eu já estive em Belo Horizonte com os consultores que fizeram o CBC, e afirmo: MUITO mal feito) e ainda são obrigados a tolerar admoestação de diretores, supervisores e inspetores por maus “resultados” e são perseguidos por cruéis Avaliações de Desempenho. O professor acaba acuado, amendrotado, se cala, e aceita. A história já mostrou muita gente assim, travestido em democracia: Mussoline, Salazar, Franco, entre outros. Minas Gerais, em educação, tem exatamente o mesmo comportamento. Ninguém está satisfeito, mas se perguntarem, não vai haver um que tenha coragem de dar a cara à tapa. A covardia e atribuição de notas azuis para todos os alunos tornaram-se instituições obrigatórias, inclusive para promoção por mérito e para receber um 14º salário com nome capitalista: Premio de Produtividade – quem produzir mais alunos sem saber, com notas e estatísticas terá mais dinheiro no bolso.

A mentira é uma instituição oficializada. Efetivaram-se milhares de servidores e diz-se que foi uma conquista: na realidade a efetivação foi uma obrigação do governo para ficar de acordo com modificações previdenciárias da Emenda Constitucional número 20. O 14º salário ele foi obrigado a pagar, pois caso contrário não conseguiria gastar todo dinheiro que o estado recebeu de repasses do FUNDEB, e teria que devolver para o governo federal. O piso de R$ 850,00 é uma farsa, só vale para professor iniciante, com no máximo um biênio – o que o governo fez foi cortar várias outras vantagens.

A subestimação da inteligência do povo mineiro foi tão grande que o jornal “O Estado de Minas” publicou que MG obteve o melhor resultado da região sudeste no ENEM, no intuito de ludibriar o leitor. A média do estado de acertos por questão no ENEM foi 39,03, sendo a média do estado de São Paulo de 38,86, do Rio de 38,61 e do Espírito Santo de 38,51, ou seja, uma diferença insignificante, de 0,44%, menos de uma questão. Pura mentira, no intuito de enganar o leitor.

Só para exemplificar no caso do ENEM, no caso dos concluintes do 3º ano do Ensino Médio, a média de MG era de 37,73, inferior aos 37,78 do RJ e próxima aos 37,47 do ES e 36,49 de SP. Na maioria das provas as diferenças de MG para outros estados eram insignificantes.

A insensatez das propostas mostra sinais de incoerência. Há um tal de processo de reclassificação e classificação que até hoje ninguém entendeu – não há padrão e ninguém – nem mesmo os criadores dos regulamentos – entendem como funciona. Serve para toda escola fazer errado e levar bronca. O mesmo vale para Progressão Parcial e para os bizarros Estudos Orientados Presenciais feitos imediatamente após o ano letivo, onde não há nenhum dia previsto para que ocorram, mas que toda escola é obrigada, por força de uma Resolução (521) a executar.

A incoerência é extrema. Inventaram uma tal de Ênfases Curriculares, onde os alunos se especializaram em algumas matérias e não terão outras no currículo. Aplicaram nas Escolas Referências (um projeto mal sucedido), as tais ênfases não deram certo, e o que ocorreu? Aplicou-se para o estado todo, como se fosse possível sonegar de alunos que querem fazer vestibulares disciplinas como Física ou História de seus currículos (e fizeram isso). Parece que não conhecem história e não lembram do fracasso que essa metodologia foi no Brasil entre 1961 e 1971, e o fracasso disso em todo o mundo: Minas Gerais na marcha ré da história em termos de Educação.

Os maus resultados das Escolas Referências se mostram na queda das notas do ENEM da maioria das escolas que aderiram ao projeto. Até mesmo no PROEB, avaliação do próprio governo estadual, é perceptível que as escolas que aderiram ao sistema de “ênfases” tiveram declínio em seus resultados. O fracasso institucional foi levado para todo o estado, como se fosse algo pioneiro.

Tão pioneiro quanto a afirmação de que o estado foi o primeiro a aderir ao Ensino Fundamental de 9 anos, enquanto o sistema já existia na prefeitura de Porto Alegre desde 1990, por exemplo. Eu mesmo trabalhei em escola, em Araraquara, com Ensino Fundamental de 9 anos, antes da implantação no estado de Minas Gerais.

Ora, há coisas tão incríveis que chega a nos deixar perplexos. Por exemplo, há uma avaliação chamada PAAE, apenas para alunos do 1º ano do Ensino Médio. Uma fortuna de dinheiro foi enviada para escolas para ser desperdiçado em xeróx de provas que os alunos eram incapazes de resolver, e perguntavam sobre geografia do caribe, passos de dança de Tango, entre outras coisas que eles seriam impossível de saber – uma prova tão perversa que o professor também teria que responder e seria avaliado pelos seus erros – e foram muitos no estado,obviamente, não pela má qualidade dos professores, mas pela má qualidade do “Banco (sic) de Itens (sic)”. Naturalmente, a prova não funcionou, a maioria das escolas não deu conta de aplicá-las corretamente, e, as provas que mediriam o avanço dos alunos no decorrer dos três bimestres, a partir do CBC do primeiro ano que prepara para as “ênfases curriculares”, e, simplesmente, a prova foi abandonada. Dinheiro jogado no lixo, sem serventia, sequer vai servir para ver qualquer evolução.

Aliás, a lista de absurdos do estado é muito grande: Atividades Complementares, turmas de 40 minutos e 50 minutos, Plano de Intervenção Pedagógica, Análise de Gráficos, PDI.

São tantos “P”s que ninguém acompanha: PAAE, PIP, PROEB, PROALFA, PDI, PP, PDP...

Quanto ao governo de São Paulo, diria eu, que até eles acreditam em nossas mentiras. A CENP tem mais condições de produzir materiais e bons materiais que toda a estrutura pedagógica do estado de Minas Gerais. É até ofensivo comparar com São Paulo.

Talvez queiram os governantes do estado bandeirante implantarem lá a passividade e a submissão dos professores mineiros. Por lá tem USP, UNESP, UNICAMP, diretórios acadêmicos, políticos, empresários, APEOESP e muitos outros sindicatos para protestar e fazer barulhos. E em Minas Gerais? Nada! Apenas silêncio aos novos coronéis.

A resposta a gente precisa dar nas urnas, rejeitando esse governador e qualquer um de seus seguidores. Minas Gerais precisa retomar os trilhos da educação, sem tortura, sem pressão psicológica, trabalhando-se com competência técnica, respeito às limitações do professor, sem burocracia, frescuras, mentiras.

O professor não é culpado. Esse sistema é fracassado e não vai funcionar. Nunca.

Prof. Otávio – Vereador Eleito – 2009-2012

PS: Se o professor entra na sala e não consegue aprendizagem é considerado culpado pelos AORG que vem analisar gráficos como se esses fossem totens ou oráculos. Nesse caso o professor não soube motivar, não estudou, e talvez deva ser demitido. Já se os AORG não conseguem fazer uma escola funcionar, o culpado é o professor, que é folgado, mal preparado, incompetente e burro, e deva ser demitido. Eu diria, pagando na mesma moeda. Se os professores não ensinam é pelo fato dos AORG não ensinarem direito, não respeitarem os limites de cada professor, não contextualizarem os seus trabalhos. Eles pedem tudo isso aos professores para motivar os alunos, então façam isso para motivar os professores. Chega dessa coisa ridícula! Vamos agir daqui a 2 anos, nas urnas.

3 comentários:

Vanessa Crecci disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vanessa Crecci disse...

Olá Professor
São esclarecedoras suas opiniões acerca deste sistema de controle e avaliação do professor que ocorre há algum tempo em uma tendência mundial de homogeneização das práticas docentes.
[]´s
Vanessa Moreira Crecci - Estudante de Pedagogia

therezinha disse...

Olá professor. Estou estarrecida com a sua reflexão, pois achei que a educação tinha mudado realmente, pois tenho lido tantas coisas bonitas e muitos "Ps", como orofessor mencionou. É preciso alguém com coragem para remover a maquiagem feita na educação. Vamos continuar a lutar, quem sabe os nosso tataranetos terão uma educação melhor.